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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Dentro do medo










Agarro as palavras, arrasto-lhes o sentido,


pronuncio-as prudentemente,

silencio-lhes a aspereza e o mêdo,

pego-lhes de rompante,

como quem apanha uma serpente...

Viscosas, enrolam-se, estrangulam-me,

numa roda que gira entrecurtada

por silêncios que ruminam

sem propósito ou destino...

Rumo em direcção aos lugares

famintos de dôr e amor,

carentes de vida e de sonho...

Debruço-me donde vislumbrava

horizontes e marés...

Estemeço na vertigem,

irmã do abandono...

Olho-te no caminho da memória,

revejo a tua expressão,

sem vida...

Assusto-me nas palavras que não digo,

como quem ama em segredo...

Adormeço na tarde ainda quente

da tua presença colorida...

Adivinho a manhã que se recusa a nascer,

olhando a madrugada morta...

Abraço o vazio, num gesto sem nexo,

amarro memórias,

imagens, lugares, paisagens...

Recolho o último vestígio,

como quem emoldura

a sua própria imagem...

Ondulo o espanto no desencanto

do canto...

Navego na espuma dos dias

em busca de um navio fantasma...



Barão de Campos

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Se eu pudesse...











Queria que os teus lábios escorressem pelo meu corpo, doces e famintos. Queria olhar-te dentro dos olhos nesse momento... Queria sentir-te no mais profundo que há em ti... Queria ser-te e ser-me em ti, como se tu e eu não o fossemos por instantes... Queria ser capaz de te oferecer a Eternidade em troca de mais uma noite... Queria compôr dentro das tuas palavras a mais bela melodia... Queria baloiçar-te e perder-me contigo na imensidão sideral... Queria amar-te sem lágrimas...

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

NO SILÊNCIO DA MADRUGADA...











No silêncio da madrugada, desta madrugada que será a única entre tantas outras madrugadas sem nome, procuro nas sombras os rostos de mil vidas, palavras para dizer-me...

No silêncio mudo da madrugada que insiste em camuflar a dimensão solar das coisas, adormeço a dôr incendiada...

Escuto dentro do silêncio a solidão da impossibilidade, a recta infinita desta suspensão eterna...

Procuro a memória do dia, tentando resistir mais umas horas...

Procuro os meus olhos dentro do meu rosto, como se ainda fosse possível recuperar as imagens que os habitaram...


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